08/03/2021 às 08h39min - Atualizada em 31/03/2021 às 18h39min

A participação da mulher no agronegócio do Brasil

Organizadas em movimentos sociais como o Agroligadas, mulheres buscam ampliar sua voz

Lorena Krebs
Banco Imagens Freepik.com
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“Naquela época era muito difícil, não era comum, não era normal uma mulher ir estudar sozinha fora, ele (pai) chegou para mim de última hora – eu já estava me preparando para ir fazer o vestibular em outro estado, e ele simplesmente chegou pra mim e falou que “filha minha não sai debaixo das minhas asas. Você pode escolher o que você quiser, mas aqui em Cuiabá”” é assim que começa a história da produtora rural Tania Maria de Oliveira. Formada em Educação Física, área com a qual trabalhou por muitos anos, Tania gostava mesmo era do campo e da produção de sua família.

Foi apenas depois de muitos anos como professora que a oportunidade surgiu, quando percebeu que ninguém tomaria conta do negócio da família. Tania então, pouco a pouco, deixou sua profissão e partiu para sua verdadeira vocação.

Hoje ela faz parte das, aproximadamente, 30% de mulheres que estão trabalhando com gestão no Agronegócio, segundo dados da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag).  Assim como Tânia, outras mulheres têm assumido as fazendas, as empresas e trabalhado em diversos setores que estão, de forma direta ou indireta, ligados ao Agro. Não são mulheres que da noite para o dia assumiram seu papel, mas são mulheres que, graças a um protagonismo cada vez mais presente de suas vozes, tem mostrado que no campo tem mais mulheres do que era possível pensar antes.

Cláudia Luz, gestora de Comunicação do grupo SENAR, se mostra extremamente feliz com este momento. Entusiasta de diversos grupos que surgem para capacitar, desenvolver e empoderar, como as Agroligadas, a gestora que há dezoito anos está no meio do Agro consegue perceber que até há alguns anos o público alvo era majoritariamente masculino, mas que isso foi mudando e as mulheres não representam uma porcentagem pequena como se pensava no começo de sua experiência neste universo, lá por 2000.

Na Agricultura Familiar o cenário também não é diferente, as mulheres têm ocupado diversos espaços de diretoria e relatam o apoio que recebem das famílias, que cuidam das propriedades familiares enquanto elas abraçam a causa sindical e procuram abrir mais espaços e direitos não apenas para mulheres, mas para todos.
No censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2017, consta que mais de um milhão de mulheres se autodeclarou chefe de um empreendimento rural; destas, 946 mil como principal gestora e 817 mil cogestoras.

Ainda em números, entre os anos de 2004 e 2015, a participação das mulheres no Agro aumentou cerca de 8,3%, com base em um estudo do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP – nesse mesmo período, a participação de homens diminuiu em 11,6%.

A presidente do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Querência, Claudia Santos, fala que, ao analisar o movimento sindical, ela sente que as mulheres têm tomado a frente.  “Em Querência eu entrei no sindicato em 2009 e a partir disso tivemos um cuidado de estar buscando as mulheres, porque elas até tinham o interesse, mas não tinham o conhecimento, não tinham espaço. Com a nossa participação buscamos a mulheres, hoje a maioria da diretoria são mulheres. Os próprios assentados dizem que depois que assumimos foi mais fácil de lidar, as mudanças são visíveis”.

“O agro tem cada vez mais voz e eu ouso dizer que é uma voz feminina”, afirma a produtora rural, Camila Telles, que também tem ganhado cada vez mais espaço no cenário brasileiro como a voz que defende e explica o Agro quando notícias trazem falas distantes da realidade vivenciada na produção.

Um dos pontos de evolução dentro da Agro para as mulheres foi uma conquista na Agricultura Familiar, que garante as mulheres o seu nome na propriedade, coisa que antigamente não era possível, e em caso de separações, por exemplo, a mulher, que também trabalhava e auxiliava no sustento da família, ficava sem nada. “Essa luta é fundamental, é uma coisa mínima ter o nome no papel, mas faz uma diferença enorme” elucida Claudia Santos.

Apesar do crescente número de mulheres dentro de atividades do Agro, nem tudo é positivo dentro deste cenário. O preconceito existe e a violência também. Marilza Reis, secretária de mulheres na Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Mato Grosso (Fetagri), explica que a violência no campo também tem uma face silenciosa, pois muitas mulheres moram em propriedades longe umas das outras, sem acesso fácil a uma delegacia, a um psicólogo e até mesmo a informações, então é preciso pensar também em ações que possam chegar até elas e em uma rede de apoio. (Se não acharem interessante falar sobre, podem cortar)
Maria Aparecida Brito, do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Juara relembra que no começo de seu trabalho houve muita dificuldade “Eu sofri o preconceito de uma cidade que nunca tinha tido uma mulher como presidente. E também meu marido nunca foi do movimento, não tinha engajamento. Tive muita luta. Foi pela garra mesmo, graças a Deus, mas conquistamos nosso espaço em Juara e lá estamos e muita gente agradece por estarmos a frente, que as coisas mudaram muito”.

Claudia Luz buscou encarar essas diferenças de outra forma, entendendo que as vezes a comunicação que servia para ela, não serviria para um homem, muito também pelo fato de todos terem uma vivência diferente. “O que eu percebi nessa lida com muitos homens é que tive que adaptar minha linguagem para se fazer entendida, não é questão de hierarquia, mas entender que pessoas diferentes entendem repertórios diferentes” explica. Para Claudia, a voz da mulher do Agro hoje é mostrar que elas existem como segmento bem definido e não como neste espaço.

Já Marilza acredita que a voz da mulher hoje é a resistência, sabendo que precisam ter um pouco de mulher maravilha para lidar com as diferentes esferas da vida e ainda assim avançar profissionalmente. Dona Olinda, agricultora familiar, com seus já 70 anos bem vividos – e que ainda carregam muita força para o trabalho cotidiano, quando questionada sobre a força da mulher do campo, afirma que é “tudo” neste meio.

Agroligadas

Um dos pontos muito levantados pelas entrevistadas foi o avanço da comunicação e também da importância do acesso a informação dentro do Agro. E, um dos grupos que surgiu, também com essa bandeira, é o Agroligadas, formado por mais de 400 mulheres de todo Brasil, mas com uma concentração de 80% em Mato Grosso, o movimento tem por intuito conectar o campo a cidade.

“O nosso propósito é ser um movimento de mulheres ligadas ao agro, que tem dois pilares: educação e comunicação. E mulheres do agro porque todas que trabalham nesse movimento são ligadas ao agro, mas quem queremos atingir não é necessariamente do Agro”, explicou a presidente das Agroligadas, Geni Schenkel.

Ela relembra um pouco a história do grupo, que começou em 2018 por meio de uma reunião organizada por ela para as esposas de funcionários da Associação Mato-grossense de produtores de algodão (AMPA). A época, seu esposo era o presidente da organização e ela sentia necessidade de entender melhor algumas questões. A reunião, inicialmente para vinte pessoas, acabou sendo para quarenta. Em menos de cinco meses, o grupo de comunicação das Agroligadas já contava com mais de 100 mulheres, e só foi crescendo.

Mas, com o crescimento, veio também a indagação do que mais o grupo poderia fazer, quais seriam as ações, as linhas de frente. Foi aí que em 2018, Geni e mais 14 mulheres passaram a estar na diretoria do grupo e participar de uma consultoria para ter um corpo mais definido do movimento.

Com diferentes perfis dentro do grupo, como produtoras rurais, gestoras, jornalistas, esposas, advogadas, e de diversas outras áreas ligadas ao Agro, o grupo tem muitas ideias de como atuar com sua linha de trabalho, mas passa por algumas dificuldades – não é uma atividade remunerada, então, além de conciliar trabalho e família, as envolvidas precisam doar um tempo para as Agroligadas, e na hora de colocar a mão na massa, não são todas que conseguem auxiliar. Hebe Vacari, uma das diretoras, explica que algumas já deixam um dia da agenda bloqueado para resolver assuntos do grupo.

Outra dificuldade é o recurso financeiro, uma vez que para os eventos e workshops, elas costumam ter parcerias e patrocínios, mas para as atividades mais cotidianas acaba saindo do bolso e ficando oneroso. Ter um CNPJ pode ser uma solução para este problema, mas esta pauta ainda está em discussão pelo grupo e, por hora, não está entre as prioridades.

Ao longo do ano passado as Agroligadas realizaram o Workshop Agroligadas na Famato, cujo tema era focado na Comunicação do Agro e também um dia de campo para algumas escolas de Campo Verde, mostrando toda a cultura do Algodão. Para fortalecer que o objetivo de comunicar e divulgar informações do Agro, as Agroligadas também possuem um programa de rádio semanal. 

Para Geni, a voz da mulher do Agro vem justamente da união de todas elas, o que faz com que a voz delas possa ser disseminada e “ser alcançada em lugares onde não alcançava”.
 
 
 
 

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