30/12/2021 às 11h28min - Atualizada em 30/12/2021 às 11h28min

Mutação da Ameixa Letícia põe fim a necessidade de polinização cruzada

O produtor que identificou a Letícia AF já instalou um pomar comercial e está produzindo sem nenhum outro cultivar polinizador

Assessoria
Epagri SC
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O fruticultor Hermes Coser, de Videira, identificou uma mutação do cultivar de ameixa Letícia que não necessita de polinização cruzada e aparenta ter vantagens significativas em relação ao cultivar original. O novo cultivar está registrado com o nome de Letícia AF (o AF vem de autofértil) e o processo de proteção está em andamento. “No entanto, já deverão existir mudas disponíveis para plantio no próximo ano”, prevê Marco Antonio Dalbó, pesquisador da Estação Experimental da Epagri em Videira.

O produtor que identificou a Letícia AF já instalou um pomar comercial e está produzindo sem nenhum outro cultivar polinizador. O novo cultivar também já foi introduzido na Estação Experimental da Epagri em Videira e está sendo comparada com a Letícia original. “As plantas são jovens, ainda em crescimento. Porém, já se observa um expressivo pegamento de frutos nas plantas de Letícia AF, ao passo que na Letícia original, isso não ocorreu”, contextualiza Dalbó.

Segundo Dalbó, a autocompatibilidade, ou seja, a capacidade de se autopolinizar e produzir frutos, traz uma série de vantagens para os produtores. “De cara, elimina-se necessidade de ter de 10 a 15% das plantas do pomar de cultivares polinizadoras, que geralmente não têm valor comercial”, relata.

Vantagem

Ele diz que, no caso da Letícia, há uma vantagem ainda maior, que é proporcionar mais estabilidade da produção, por reduzir os efeitos de eventos climáticos desfavoráveis no período de floração. “É muito comum nesse cultivar haver perdas de produção em razão de que o período de floração ocorreu em condições desfavoráveis aos insetos polinizadores, como excesso de chuva ou frio. Também, em função da floração tardia da Letícia, podem ocorrer períodos de calor seco na floração, principalmente em anos sob efeito do evento climático conhecido como ‘La niña’. Nesse caso, o pegamento de frutos é baixo mesmo que as abelhas consigam trabalhar adequadamente”, relata o pesquisador.

Dalbó conta que, embora se tenham poucos anos de observação, a Letícia AF parece ser menos afetada por efeitos climáticos desfavoráveis na floração. “Nas safras 2018/19 e 2019/20, foram comuns as reclamações de baixa frutificação por parte de produtores de Letícia. No caso da Letícia AF, não só a produção foi normal, como houve necessidade de raleio”, descreve o pesquisador. Ele explica que é provável que a Letícia AF necessite de raleio químico, para diminuir a mão-de-obra demandada pelo raleio manual. “Para isso, mais alguns estudos são necessários para o estabelecimento de doses. O produtor que identificou a mutação já vem trabalhando nesse sentido”, revela Dalbó.

Segundo o pesquisador, apesar dos poucos anos de observação, ainda não foi possível encontrar outras alterações na Letícia mutante, além da característica de autofertilidade. “Assim, as características de cultivo que são conhecidas para a Letícia original também são aplicáveis para a Letícia AF”.

Juntamente com o cultivar Fortune, a Letícia é responsável pela maior parte da produção de ameixa no Sul do Brasil. Foi criada na África do Sul e lançada oficialmente em 1986, com o nome de Laetitia. No Brasil, tornou-se conhecida como Letícia. Teve grande aceitação por combinar alta qualidade dos frutos e resistência relativamente elevada à escaldadura das folhas, causada pela bactéria Xylella fastidiosa. Dalbó conta que o surgimento deste cultivar possibilitou o reerguimento da cultura da ameixeira no Brasil nos anos 1990, após o período de declínio causado pela introdução da escaldadura das folhas. “Até hoje é a principal produtora de ameixas de maturação tardia no Brasil, sendo a colheita realizada entre a metade e o final de janeiro”, relata ele.


 
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