17/08/2021 às 08h27min - Atualizada em 17/08/2021 às 08h27min

De Olho no Clima

Pesquisador analiza as mudanças climáticas que tem ocorrido nos íltimos 20 anos e seus impactos para a atividade agrícola

Daniel Pereira Guimarães
Embrapa
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Os últimos relatórios da Organização das Nações Unidas são categóricos acerca das influências exercidas pelo ser humano (ações antrópicas) sobre as mudanças climáticas e apontam para mudanças irreversíveis no meio ambiente. Eventos extremos, que tendem a ocorrer de décadas em décadas, atualmente são observados frequentemente.
 
Nos últimos 20 anos ocorreram três estiagens severas: a primeira, em 2001, em que o fato mais evidente foi o “apagão” ocasionado pela falta de energia elétrica; a segunda foi a estiagem de 2014-2015, com graves problemas de abastecimento hídrico, principalmente na capital paulista; e a situação atual, que já causou graves perdas na produção agrícola e ainda trará sérias consequências nos próximos meses.
 
Outubro de 2020 teve os maiores registros de altas temperaturas já ocorridas nos estados do Sudeste e Centro-Oeste do Brasil, além do desastre causado pelas queimadas no Pantanal. Em junho deste ano, o Rio Negro teve o maior registro de cheia da história. O mês de julho foi marcado pelas frentes polares que causaram nevascas na região Sul brasileira e a ocorrência de geadas com fortes impactos na cafeicultura de Minas Gerais, chegando a atingir até o Mato Grosso.
 
Essas ondas de frio atingiram simultaneamente outros países do Hemisfério Sul localizados na África e também a Austrália, evidenciando instabilidades atmosféricas na Antártica. Registros da Organização Meteorológica Mundial indicam que em fevereiro de 2020 a estação de pesquisas argentina de Esperanza, na Antártica, registrou a maior temperatura já atingida nessa região polar: 18,3 °C.
 
Os eventos extremos no Hemisfério Norte são ainda mais impressionantes. A temperatura de 49,6 °C registrada no dia 29 de junho de 2021, no Canadá, e a de 48,8 °C, na ilha italiana da Sicília, são as maiores já medidas na América do Norte e no continente europeu. O norte da Sibéria, região da Rússia incluída no Círculo Polar Ártico, chegou a registrar temperaturas de 37 °C em junho de 2020. 
 
O derretimento de camadas de gelo da Sibéria sobre depósitos orgânicos, conhecidos como permafrost, libera enormes quantidades de gás metano, que causa impactos no efeito estufa da atmosfera. Essas instabilidades climáticas são também as causas dos enormes incêndios florestais ocorridos no estado da Califórnia, no norte de Portugal e, nos últimos dias, na Grécia, além das enchentes ocorridas na Alemanha e na China, e mais recentemente no Rio Ganges, na Índia. Esses eventos extremos emitem sinais claros sobre a necessidade de o ser humano basear suas ações nas práticas já conhecidas do desenvolvimento sustentável.
 
A SITUAÇÃO ATUAL
As precipitações abaixo da média, verificadas na última estação chuvosa nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, resultaram em baixos níveis de armazenamento hídrico nos solos e na forte estiagem que estamos enfrentando neste ano. As chuvas registradas no Paraná e em São Paulo foram em média 25% abaixo da média, e houve cerca de 20% de redução em Minas Gerais. Nas áreas da bacia hidrográfica do Rio Paraná, principal fonte de geração de energia elétrica do Brasil, as chuvas foram ainda mais reduzidas.
 
Estima-se que o reservatório da represa de Furnas, conhecido como o mar de Minas, tenha seu volume de água reduzido para cerca de 10% e que a metade da água afluente no lago seja perdida pelo processo evaporativo. As sucessivas ondas de frio e as temperaturas médias abaixo da média contribuíram para reduzir a perda da água do solo para a atmosfera por meio da evaporação ou transpiração das plantas, o que poderia ter agravado ainda mais a estiagem atual.
 
O mês de agosto apresenta condições climáticas extremamente perigosas para a ocorrência de incêndios, uma vez que as temperaturas já apresentam elevações em relação ao mês anterior, e existem maior intensidade de déficit hídrico nos solos, alta deposição de folhas e galhos das plantas no solo, baixa umidade relativa do ar e aumento na velocidade dos ventos. A existência de umidade no material depositado no solo e nas gramíneas contribui para a geração de fumaça escura e com altos riscos de acidentes nas estradas, pela redução na visibilidade do trânsito.
 
Visando reduzir os impactos causados pelas queimadas no Brasil, o Governo Federal editou o Decreto nº 10.735, de 28 de junho de 2021, proibindo a prática de queimadas no território nacional pelo prazo de cento e vinte dias, ou seja, durante todo o período de estiagem. A maior incidência dos ventos favorece a dispersão do pólen das flores na atmosfera, fator que contribui para as alergias respiratórias. Nesse sentido, o uso de máscaras de proteção passa a ter dupla finalidade, diante da pandemia e do clima.
 
A qualidade do ar já está sendo impactada pela concentração de poluentes na atmosfera, principalmente onde estão ocorrendo maiores focos de queimadas.

Figura 1. Focos de calor identificados por satélite entre os dias 14 e 15 de agosto de 2021. Fonte: FIRMS-NASA
 

A baixa incidência de focos de calor nas principais regiões agrícolas do País (Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul, oeste de São Paulo e Paraná, sudoeste de Goiás, noroeste de Minas Gerais e Triângulo Mineiro) indica o uso de boas práticas para a conservação da água e dos solos. As maiores incidências de queimadas estão ocorrendo no Acre, no norte de Rondônia, Maranhão, Piauí e nordeste de São Paulo. Os países vizinhos Bolívia, Paraguai e Argentina também concentram altas incidências de focos de calor.

Figura 2. Concentração de dióxido de carbono e partículas em suspensão na atmosfera no dia 13 de agosto de 2021. Fonte: Agência Espacial Europeia – CAMS-Copernicus.
 

Os focos de calor em áreas de vegetação mais densa são no momento as principais causas da poluição atmosférica em relação às variáveis monitoradas.
 
 
TENDÊNCIAS
 
As previsões do tempo para os próximos 15 dias, de acordo com o modelo global americano GFS (Global Forecast System), indicam condições de aumentos da temperatura e baixa probabilidade da ocorrência de chuvas para as regiões Sudeste e Centro-Oeste, compatíveis com as normalidades climáticas para esta época do ano.

Figura 3. Previsões de chuva e temperatura média do ar para os próximos 15 dias. Fonte: NOAA-NCEP-GFS.
 

Em consonância com os padrões atmosféricos, as tendências para o período de estiagem indicam aumentos na temperatura, baixa umidade relativa do ar e concentração das chuvas nos extremos norte e sul do Brasil.
 
As previsões de tempo são feitas para períodos entre um a quinze dias, tendem a apresentar altos índices de acertos, principalmente para curtos períodos de tempo, e são capazes de descrever a dinâmica da atmosfera ao longo do tempo de análise. As previsões de clima, para vários meses subsequentes, apresentam maiores níveis de incertezas em função da complexidade das atividades atmosféricas.
 
O fenômeno ENOS (El Niño Oscilação Sul) está relacionado com as variações de temperatura no Oceano Pacífico Tropical nas regiões costeiras do Peru e do Equador e apresenta correlações com a precipitação e a temperatura no Brasil, sendo as maiores influências coincidentes com a estação das chuvas no final e no início do ano.
 
As atualizações da modelagem da temperatura do Oceano Pacífico na região Niño 3.4 indicam a maior probabilidade de ocorrência, nos próximos meses, do fenômeno La Niña, similar ao que tivemos no último ano, quando as temperaturas do mar ficam abaixo de 0,5 °C da média móvel. Temperaturas mais baixas do oceano implicam menor evaporação da água e menor formação de nuvens, com inferiores temperaturas e precipitação atmosférica na região Sul e maiores intensidades nas regiões Norte e Nordeste.

Figura 4. Atualização da previsão da temperatura do Oceano Pacífico Equatorial nos próximos meses, indicando a maior probabilidade do fenômeno La Niña. Fonte: IRI/CPC – Universidade de Columbia. 
 

Os modelos de previsão climática no Brasil se baseiam nas projeções dos modelos operados pelas instituições CPTEC, INMET e FUNCEME, e as previsões feitas para os próximos três meses indicam chuvas abaixo ou em torno da média para as regiões Sudeste, Centro-Oeste e Sul e o inverso para as regiões Norte e Nordeste. As últimas atualizações das previsões feitas por esses modelos ocorreram em julho de 2021.
 
Os modelos globais são mais complexos e incluem informações das condições oceânicas, da cobertura vegetal e das calotas polares. Infelizmente, o Brasil não dispõe hoje de recursos computacionais suficientes para fazer essas análises, que efetuam previsões de tempo para todo o globo a cada seis horas e previsões de clima mensais para os próximos seis meses a partir do décimo dia de cada mês do ano. 

Figura 5. Previsões de chuva para os próximos seis meses no Brasil a partir da média dos modelos globais (CFSv2, GFDL, NCAR e NASA – americanos; CanCM4i e GEM-NEMO – canadenses). Fonte: NOAA- CPC. 

 
As previsões dos modelos globais de chuvas acima da média para a maioria das regiões brasileiras a partir de outubro, exceto para o Sul do País, trazem boas perspectivas de minimização dos graves problemas causados pela estiagem, principalmente se considerar-se que existe confluência de resultados de diferentes processos de modelagem. No entanto, a principal questão no momento é a convivência com a situação atual de estiagem, que tende a se agravar até o início da próxima estação chuvosa.
 
 
 
 

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