30/06/2021 às 09h27min - Atualizada em 30/06/2021 às 09h27min

Países do G20 sob pressão para informar como e quanto devem reduzir as emissões de gases pelo agronegócio

Pecuária industrial corresponde a cerca de 15% das emissões globais

Redação com assessoria
Fairr Initiative

Londres e Rio, 30 de junho de 2021 - A quatro meses da Conferência das Nações Unidas para o Clima (COP-26), Ban Ki-Moon, ex-secretário-geral da ONU e arquiteto do Acordo de Paris, se junta aos investidores que pedem, a todos os países do G20, mais detalhes sobre as suas metas de redução de emissão de carbono para o agronegócio, no bojo de suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs). 

No manifesto “Where´s the Beef?” (“Onde está a Carne?”), coordenado pela FAIRR Initiative, um grupo de investidores internacionais cobra dos governos do G20 mais transparência sobre a contribuição do agronegócio nas metas de redução de emissões.  Ou seja, questiona o quanto da redução de emissões - conforme descrito nas NDCs -  deve vir do agronegócio. Entre os signatários da carta, que somam US$ 5 trilhões sob gestão (AUM), estão o fundo de pensão da Canada Post Corporation e a Legal & General Investment Management, do Reino Unido. 

O setor agrícola responde por um terço das emissões globais. No entanto, nenhum dos países do G20 informou, em seus NDCs, metas claras de redução das emissões pela atividade agropecuária. Isso não acontece em outros setores que têm alta participação nas emissões globais. Por exemplo, a área de energia tem metas próprias em metade das NDCs atualizadas do G20. A de transporte, em um quinto. 

Atingir o nível zero de emissões é impossível sem uma guinada na agropecuária. Por isso, os investidores estão demandando clareza sobre a contribuição do setor, que frequentemente é esquecido, mas tem um papel essencial na descarbonização.  

Jeremy Coller, presidente da Fairr e diretor de investimentos da Coller Capital, disse: 

“As vacas são o novo carvão. As emissões da agricultura e usos da terra correlatos estão no mesmo patamar que as emissões industriais da Europa, EUA e Japão somados.  Se o processo da COP26 puder fixar, com transparência, os planos de cada país para lidar com a pegada ambiental da agricultura, isso daria um impulso na confiança dos investidores para mobilizar capital na direção de sistemas e alimentos mais sustentáveis.  

Se os investidores não sabem para onde estão indo, qualquer lugar serve. Reduzir as emissões sem um plano não é só ineficiente mas também prejudicial para os investidores e as companhias empenhados em assegurar uma transição justa e equitativa para uma economia de carbono zero.

Os governos têm a oportunidade de mostrar liderança e de ser transparentes em relação a quanto de seus compromissos climáticos serão oriundos da agricultura. Os mercados de capital precisam dessa informação. É por isso que estou me aliando a investidores que somam mais de US$ 4 trilhões em ativos para alertar que ‘as vacas são o novo carvão’.”

Ban Ki-moon, oitavo secretário-geral das Nações Unidas e um dos arquitetos do Acordo de Paris, de 2015, disse:

“Os governos estão fazendo progressos com metas ambiciosas para reduzir as suas emissões, mas se eles quiserem atingir os objetivos do Acordo de Paris, os países também devem dizer como irão lidar com o alto nível de emissões do setor agrícola como parte de seus compromissos climáticos.  

Eu apóio os investidores e a campanha “Where´s the Beef?” para que os governantes submetam planos climáticos atualizados antes da COP26. Metas transparentes de redução de emissões ajudarão os investidores e demais stakeholders a aferir o progresso no sentido da emissão zero e a desenhar a transição para uma agricultura mais sustentável. Os governos devem trabalhar com os agricultores para construir um setor agrícola sustentável, que proteja as vidas e comunidades que dependem do campo.”

O manifesto se chama “Where´s the Beef?” porque o setor agrícola abarca a produção de carne bovina, maior emissor dentre as atividades agropecuárias, respondendo, sozinho, por 15% das emissões de gases. 

A atividade agropecuária como um todo está exposta a riscos climáticos devastadores. Análises mostram que 40 das maiores companhias de carne do mundo vão enfrentar perdas de US$ 11 bilhões devido à potencial taxação de carbono.   

Os investidores destacam ainda que a falta de metas nacionais claras desincentiva a ação climática das firmas agrícolas. Enquanto o ambiente regulatório global se transforma para acelerar a descarbonização, metas nacionais claras para a agricultura vão apontar para uma transição oportuna e bem administrada. 

Como parte de suas NDCs: 

  • A União Europeia se comprometeu a reduzir, até 2030, as emissões de carbono em pelo menos 55% em comparação com os níveis de 1990;
  • O Reino Unido se comprometeu a reduzir, até 2035, as emissões em 78% em comparação com os níveis de 1990;
  • Os EUA prometeram reduzir à metade suas emissões até 2030
  • O Japão planeja cortar, até 2030, as suas emissões em 46% em relação aos níveis de 2013; 
  • O Canadá se compromete a reduzir, na próxima década, as emissões em 40-45%.

Mas nenhum destes compromissos especifica metas de redução de emissões do setor agrícola. Os investidores argumentam que isso é urgente, visto que um em cada três dos 60 maiores produtores de proteína animal do mundo relatou aumento nas emissões em 2019.

A Fairr analisou os NDCs dos países do G20 atualizados até 8 de junho deste ano. (O Acordo de Paris prevê que os signatários atualizem e publiquem seus NDCs a cada cinco anos.) A UE apresentou um único NDC em nome de seus membros. 

Na análise, a Fairr verificou que:

  • metade das regiões estudadas estabeleceu metas específicas para o setor de energia: Japão, México, Estados Unidos, Coréia do Sul e União Europeia. O setor de transportes ganhou um capítulo próprio nos NDCs de União Europeia e Japão. 
  • as atualizações de NDCs foram publicadas por União Europeia, Japão, México, Coréia do Sul, EUA, Argentina, Brasil, Rússia e Reino Unido. 
  • as atualizações ainda não foram enviadas por África do Sul, Arábia Saudita, Indonésia, Índia, China e Canadá. A Turquia ainda não submeteu nenhum NDC. 

Transição para dietas mais sustentáveis

Por fim, a coalizão de investidores também estimula os países a criar as fundações para a transição rumo a dietas mais saudáveis e sustentáveis, que melhorem a saúde humana e que se viabilizem dentro dos limites do planeta. Um exemplo de medida é a incorporação de proteínas mais sustentáveis aos cardápios. No mundo todo, são produzidas 340 milhões de toneladas de carne por ano hoje em dia. O volume é três vezes maior do que o registrado há 50 anos. 

Painel Internacional sobre Mudanças Climáticas (IPCC) destacou o potencial das dietas baseadas em vegetais na mitigação das mudanças climáticas. Assim, o grupo de investidores convida os governos do G20 a planejar como as populações podem incorporar fontes de proteínas mais sustentáveis em suas dietas a fim de combater a insegurança alimentar, construir cadeias de abastecimento mais resilientes, proteger a biodiversidade e reduzir as emissões. 

Sobre a Fairr Initiative

A Fairr Initiative é uma rede colaborativa de investidores, fundada por Jeremy Coller, que administram US$ 38 trilhões (AUM). A Fairr trabalha com investidores institucionais para definir questões ESG vinculadas aos sistemas intensivos de pecuária e piscicultura e fornecer-lhes as ferramentas necessárias para integrar esss informações em suas decisões de gestão de ativos e investimento. Isso inclui o Coller Fairr Index, primeira avaliação global das maiores empresas globais de proteína animal, abrangendo questões ambientais, sociais e de governança. Visite o site www.fairr.org

 


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