26/04/2021 às 14h07min - Atualizada em 26/04/2021 às 14h07min

Com preço do milho alcançando valores tão altos, não seria hora de buscar outra fonte de energia para as rações?

A situação está causando dificuldades para produtores do mundo todo, a China já autorizou a substituição do milho nas rações por outros produtos, e por aqui, que pequeno e médio criador de suínos e aves poderiam ser utilizados, nós temos a resposta

Emerson Luis de Mesquita
CEPEA/Esalq / Scot Consultoria / Avisite
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Que o preço dos grãos utilizados na fabricação da ração de suínos e aves está cada dia mais alto, não é novidade, afinal é o que está sendo divulgado todos os dias nos principais jornais e portais de notícias especializados em agronegócios e economia do Brasil e do mundo.

A situação está complicada para os criadores já que o milho responde pela maior parte dos custos alimentares da criação, mais essa situação de preços elevados acontece toda entressafra, e este ano não deveria ser diferente. Tudo deveria ser resolvido com a colheita do milho safrinha, que colocaria um volume excedente de milho no mercado e iria equilibrar a balança para o lado dos criadores, já que quanto mais oferta de produto no mercado, menos procura, e preços mais baixos, afinal é assim que o mercado costuma agir.

Costuma, mais desta vez não é isso que especialistas em mercado de grãos tem afirmado. Pelos sinais que o mercado tem mostrado, não haverá excedente de milho, já que devido a fatores climáticos, o volume de produção do milho safrinha deve ser comprometido, e alguns sinais confirmam as previsões.

Na semana passada, os dois estados que mais produzem o grão no Brasil, o Paraná e o Mato Grosso já noticiaram que vão estão revendo suas previsões de safra. Além disso, os grandes compradores de grãos, como JBS e outros, saíram na frente e começaram a busca por milho no mercado externo.

Diante do quadro, existem algumas saídas concretas para o problema, a primeira seria importar o milho dos países vizinhos, mais não é viável para todos os produtores, por questões logísticas e de preço. Uma outra alternativa, é a que a China tem apontado aos seus criadores, substituir os grãos utilizados na ração animal. E isso pode ser feito por qualquer produtor, de qualquer região do país, independentemente do tamanho da sua criação.

Mais que grão usar na substituição? Vamos ajudar a responder essa pergunta.

Pesquisas desenvolvidas recentemente pela 
Embrapa Trigo (RS) e Embrapa Suínos e Aves (SC) apontam que cereais de inverno, como trigo, aveia, centeio, cevada e triticale, são opções viáveis para substituir o milho na formulação de rações e concentrados para alimentar suínos e aves.
 
Trigo e triticale são os melhores candidatos para substituir o milho
 
As pesquisas realizadas pela Embrapa apontam, grande potencial especialmente, o trigo e o triticale como alimentos energéticos para substituir o milho e o farelo de soja nas dietas para suínos e frangos de corte. Segundo as pesquisas, deve ser feito ajustes nos níveis de aminoácidos e de energia para atender as exigências dos animais em cada fase.

A pesquisadora Teresinha Bertol afirmou recentemente que com valor nutricional complementar ao milho e ao farelo de soja, esses cereais tornam-se técnica e economicamente viáveis para inclusão nas dietas de suínos e aves, podendo suprir parte significativa da demanda de grãos para essas duas espécies.
Resultados iniciais mostram que os valores nutricionais desses cereais são variáveis, dependendo do cultivar, do local e ano de produção. Por isso, é fundamental a avaliação de cada lote dessas matérias-primas antes de seu uso na produção de rações. 

Um exemplo de cultivar que demonstrou bom potencial para a composição de rações foi o trigo 
BRS Tarumã, que possui maiores valores de proteína bruta e energia metabolizável. Foi o que afirmou o pesquisador Eduardo Caierão.

“Com teor de proteína próximo a 18%, esse trigo foi desenvolvido para a alimentação animal em um mercado alternativo à panificação, e já vem sendo utilizado há mais de 20 anos na criação de bovinos, agora com possibilidade de atender também à demanda de suínos e aves”, explica o pesquisador.

Ainda segundo a Embrapa Trigo, a cultivar apresenta excelente valor energético, muito próximo ao farelo de soja, o que permite também baixar custos nesse item de produção.

As variedades de trigo
BRS Pastoreio e BRS Sanhaço, assim como as cultivares de triticale BRS Saturno e Embrapa 53, apresentaram menor conteúdo de energia, o que aumenta a demanda por óleo nas rações. “O uso desses cereais pode ser economicamente mais vantajoso nas fases em que os animais apresentam menor demanda de energia como, por exemplo, na gestação dos suínos. Já no caso do trigo BRS Tarumã, devido ao seu conteúdo de energia superior ao do milho e ao alto conteúdo de proteína, o uso é mais produtivo nas fases de crescimento e terminação, quando a exigência desses fatores é mais elevada”, explica o pesquisador da Embrapa Suínos e Aves Jonas dos Santos Filho.
 

Cevada também faz parte dos estudos

Ainda segundo a pesquisa, as avaliações nutricionais, os níveis ótimos para inclusão do trigo e do triticale na ração de suínos ficam ao redor de 35%, enquanto para a cevada esses níveis ficam entre 20% e 25% a partir da fase de crescimento. No caso dos frangos de corte e poedeiras, recomenda-se níveis de 20% a 30% de inclusão de trigo ou triticale, e até 20% de cevada na ração a partir da fase inicial. 

De acordo com Teresinha Bertol, esses são os níveis que permitem a melhor combinação de ingredientes para otimização do balanceamento dos aminoácidos essenciais e que proporcionam a melhor qualidade de pellet (formato da ração peletizada). Porém, ela pontua que é possível substituir totalmente o milho por trigo ou triticale nas dietas para suínos, desde que se faça os ajustes necessários nos níveis nutricionais para atender as exigências dos animais em cada fase.

Na Região Sul, as negociações da indústria de proteína animal com o setor produtivo já começaram, inicialmente com grandes produtores e cooperativas, mas devem expandir o alcance para pequenos produtores, principalmente aqueles que atuam próximo às indústrias.
 
Milheto pode substituir o milho na avicultura

A Embrapa Milho e Sorgo apresentou os resultados da pesquisa com o milheto, um cereal versátil utilizado para a formação de palha em áreas de plantio direto, proteção do solo e reciclagem de nutrientes. De acordo com a entidade, o milheto também é utilizado na alimentação humana na África e na Índia e seu uso na alimentação animal começa a crescer no Brasil.

Cícero Meneses, da Embrapa Milho e Sorgo, e Jorge Ludke, da Embrapa Porcinos y Aves, apresentaram o potencial do uso do grão de milheto na alimentação de suínos e aves. Um dos destaques foi o maior valor protéico que o milho, além da maior quantidade de aminoácidos essenciais, como a lisina, essencial para suínos. “Em termos de características nutricionais, o milheto é superior ao milho e ao sorgo. É um produto que tem 30% mais proteína que o milho ”, explicou Meneses.

Segundo ele, com mais pesquisas científicas, o produto poderá se firmar como um importante alimento na cadeia alimentar. “Sabemos que quando o preço da soja é alto, os produtores procuram o milho para reduzir a quantidade de soja na ração. Podemos melhorar essa oferta ”, disse o pesquisador.

Ele destacou que, para frangos de corte, o milheto substitui o milho em 60% na fase inicial e 70% na fase final. Para suínos, o uso pode variar entre 67% na fase inicial e 86% na fase final. “É interessante notar que, no caso dos frangos de corte, o grão inteiro pode ser dado, resultando em uma economia muito interessante, já que não há necessidade de moagem e o grão pode ser armazenado na fazenda”, acrescentou.

O painço é um cereal comum, mas ainda é usado apenas na palha. Seu ciclo é curto, de 75 a 120 dias, e já existem no mercado materiais de alta produtividade. A palha de painço é muito importante para o manejo da soja e dos nematóides. No entanto, segundo Meneses, há deficiências em pesquisas, estudos de mercado e incentivos à cadeia produtiva.

 
 
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