13/06/2020 às 10h21min - Atualizada em 30/06/2020 às 10h21min

Silagem de Capim-elefante tem alta produtividade e a implantação custa muito menos que outras variedades

Capim produz cerca de 280 toneladas de matéria verde por hectare/ano, e se bem manejada a lavoura pode durar mais de 15 anos

Emerson Luis de Mesquita
Embrapa
-
A origem do nome Capiaçu vem do tupi-guarani e significa "capim grande", e ele é realmente grande, podendo chegar a 5 metros de altura, o capim grande é um gigante em produtividade.

A cultivar que foi desenvolvida
pela Embrapa Gado de Leite (MG) é versátil, pode ser usada no cocho ou na forma de silagem, e seu rendimento é 30% superior ao de outras espécies de capim disponíveis no mercado, gerando cerca de 50 toneladas de matéria seca por hectare ao ano.

Segundo o pesquisador 
Francisco Lédo, que participou do desenvolvimento da nova cultivar, “a BRS Capiaçu é o maior lançamento da história do programa de melhoramento de capim-elefante da Embrapa”. Ele destaca o fato de ela poder ser utilizada para silagem a um baixo custo.

O capim tem sido é utilizado amplamente em todo território brasileiro, isso está acontecendo porque o capim se adapta aos diferentes tipos de solo e tolera as variações climáticas, diminuindo os riscos na alimentação do rebanho. “A BRS Capiaçu é bastante eficiente no uso da água e é tolerante a veranicos”, diz Lédo. Essas características favorecem sua adoção em diferentes regiões do País", afirmou o pesquisador.

Por enquanto, a cultivar foi registrada no Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (
Mapa) apenas para uso no bioma Mata Atlântica. No entanto, há produtores utilizando o capim próximo aos biomas Caatinga, Amazônia e, principalmente, Cerrado.

"A alta capacidade de produção de biomassa é o principal diferencial, no meu ponto de vista”, observa o pesquisador da Embrapa Antônio Vander Pereira, que coordenou o desenvolvimento da BRS Capiaçu. Pereira ressalta também o elevado teor de proteína da gramínea (veja tabela abaixo).





 
Utilizado para cultivo de capineiras e fornecido como picado verde, o capim apresenta maior valor nutritivo, conforme explica Mirton Morenz, outro pesquisador da instituição. “Cortado aos cinquenta dias, pode chegar a 10% de proteína bruta. Mas para a produção de silagem, é preciso que o material seja cortado com idade entre 90 e 100 dias, o que implica redução dos teores de proteína para aproximadamente 6%” (veja tabela).
 
 

 
 
“Embora apresente menor valor nutritivo quando comparada à silagem de milho, a silagem da BRS Capiaçu é de baixo custo, sendo uma alternativa para a alimentação do rebanho leiteiro”, analisa Morenz.


 

A palavra de quem usa

 
O produtor Wellington José Brandão, junto com a esposa, Dayane Savagin, possui uma propriedade de cinco hectares em Sengés, cidade paranaense próximo a Castro (PR), município que mais produz leite no Brasil. 

Entre vacas secas e em lactação, o rebanho de Brandão é formado por 56 animais em regime de confinamento, que produzem uma média de 500 litros de leite por dia. Os gastos com a alimentação do rebanho giram em torno de R$ 30 mil por ano.

Segundo ele, com as altas e baixas no preço do leite, fica difícil alimentar as vacas com silagem de milho.



Produtor Wellington José Brandão, de Sengés/PR


Para contornar o problema, pretende cultivar a BRS Capiaçu e fornecer como verde picado e na forma de silagem. “Confiamos tanto na produção de leite que minha esposa abriu mão de trabalhar como farmacêutica para me ajudar na propriedade”, diz Brandão, que já encomendou as primeiras mudas da nova cultivar.

Outro caso é do produtor Victor Hugo Ventura que tem uma propriedade em Santo Antônio do Aventureiro (MG). O relevo bastante irregular da região de montanhas, com várzeas encharcadas, dificultava a cultura do milho. Ventura, que começou na atividade há cerca de 15 anos, tinha poucas vacas (16) e picava capim todos os dias para tratar do rebanho.

Antes de utilizar a BRS Capiaçu, ele testou algumas alternativas para aumentar a produção. Investiu em piquete rotacionado e comprou vacas. Mas o piquete, com cana-de-açúcar e ureia, não era suficiente e ele sempre tinha que comprar silagem de milho para inteirar a alimentação do rebanho. Chegou a melhorar os resultados da propriedade produzindo o capim-elefante Cameron, com o qual também fazia silagem.




Foto: Embrapa

 
Recentemente, Ventura deu uma guinada no projeto inicial, investindo em compost barn (veja aqui) e adotando a BRS Capiaçu. Hoje, possui 120 vacas em lactação (98 delas no compost barn) produzindo, cada uma delas, uma média de 30 litros de leite por dia em três ordenhas.

Várias vacas do seu primeiro lote chegam a produzir 50 litros diários de leite. “Essa história de que silagem de capim é para vacas de pequena produção é folclore”, afirma Ventura. O projeto dele para o ano que vem é ter 200 vacas em lactação, produzindo seis mil litros de leite diários (500 litros/hectare/dia). Para sustentar essa produção, serão cultivados doze hectares de BRS Capiaçu.
 
Segundo Ventura, a produção por hectare de milho gira em torno de 80 toneladas por ano. Com o capim Cameron, a produção sobe para 180 toneladas anuais. “Já, com a BRS Capiaçu, é possível colher 280 toneladas a cada ano”, comemora. O custo do plantio é de R$ 3 mil por hectare e, quando bem manejada, a lavoura chega a durar cerca de 15 anos.


A receita de sucesso do produtor


Ventura afirma que receita de seu sucesso com o capiaçu, é o ponto de corte do capim, que é o grande responsável pela conversão da silagem em leite, por isso é melhor far isso entre 90 e 100 dias.

No preparo da silagem, ele adiciona 8% de fubá. Ventura explica: “A silagem de capim costuma ser mais úmida e o fubá contribui para reduzir essa umidade; além disso, o fubá entra na dieta como ‘grão úmido’, melhorando a qualidade da forragem”.

Ainda, segundo ele, deve ser usado inoculante para evitar a proliferação de bactérias e o material precisa ser muito bem compactado no silo.




Foto: Embrapa


Tecnologia democrática

 
O pesquisador Antonio Vander Pereira explica que o custo elevado da silagem de milho é o que a torna inacessível a muitos produtores. Por outro lado, o custo viável da BRS Capiaçu a faz atender grandes e pequenos produtores. “Podemos dizer que acertamos em cheio com a cutivar que é, no mínimo, 30% mais produtiva do que as outras variedades e a chave do seu sucesso é a versatilidade”, afirma Pereira.


Confira o passo a passo para cultivar o capim


#1 - Escolha a cultivar correta

 
A maioria dos cultivares de capim elefante pode ser utilizada para ensilar; contudo, os de porte anão foram desenvolvidos para pastejo e seu uso não é recomendado para silagem.

O produtor deve utilizar cultivares de elevada produção de massa, como o BRS Capiaçu, desenvolvido pela Embrapa especificamente para produção de silagem.



Cultivar de capim-elefante apresenta produtividade 30% maior - Portal  Embrapa

Cultivar de capim-elefante apresenta produtividade 30% maior - Portal Embrapa


Foto: Embrapa


#2 - Implantação da capineira

O plantio do capim elefante deve ser realizado no início da estação chuvosa. O solo deve ser bem preparado com aração + gradagem, seguido por sulcamento.

Os colmos de capim elefante, colhidos de touceiras adultas e maduras, são colocadas em sulcos de 15 a 20cm de profundidade, no sistema “pé com ponta”.

Para obter uma melhor brotação os colmos devem ser partidos (cortados), no próprio sulco, em pedaços com cerca de 70cm ou cinco gemas. O espaçamento entre sulcos é de 0,8 a 1,2 m.



Emater de Vilhena promove plantio experimental de mudas de Capim BRS

Emater de Vilhena promove plantio experimental de mudas de Capim BRS


Foto: Embrapa


#3 - Adubação da capineira

O capim elefante é planta exigente em fertilidade. Antes do plantio deve ser feita análise do solo. A calagem deve ser realizada antes da gradagem da área, visando incorporar o calcário. No plantio, adubar apenas com fertilizante fosfatado.

As adubações nitrogenadas e potássicas são feitas em cobertura, quando as plantas atingirem cerca de 50cm. Após cada corte, é necessária nova adubação de cobertura. 



Como fazer a Adubação do BRS Capiaçu

Como fazer a Adubação do BRS Capiaçu





#4 - Colheita da forragem

A colheita da capineira para ensilar pode ser manual ou mecânica. É feita quando a planta está madura, para obter relação adequada entre a biomassa e a produção de matéria seca (alto teor de umidade é prejudicial à silagem).

Na colheita mecânica, deve-se ter cuidado para que o pneu do trator não passe sobre as linhas, o que prejudicaria a rebrota da touceira. A forragem deve ser picada em partículas pequenas (2 a 3 cm)






#5 - Tipo do silo e localização


Os tipos de silo mais usados são superfície e trincheira. No silo superfície, a vantagem é a construção fácil e rápida, em qualquer ponto da propriedade; contudo, a compactação é mais difícil e apresenta maiores perdas.

No silo trincheira, que é construído num barranco, a compactação fica melhor e ocorrem menos perdas no processo de ensilagem. Para otimizar o processo, tanto de produção quanto de uso de silagem, recomenda-se que o silo seja construído próximo ao local de alimentação dos animais.




Foto: Embrapa


#6 - Espalhamento e compactação


Cada vez que a forragem picada for descarregada no silo, a mesma deve ser espalhada em camadas de até 25 cm e, depois, compactada para expulsar o ar que fica entre as partículas.

Desta forma, a fermentação será de melhor qualidade. A compactação do material deve ser feita com um trator, reservado para esta finalidade.





Foto: Embrapa



#7 - Uso de inoculantes microbianos


Os inoculantes microbianos são muito utilizados na produção de silagem de capim. O produto é diluído em água e aplicado com pulverizador, conforme as camadas de forragem picada são colocadas no interior do silo.

Espera-se que as bactérias produtoras de ácido lático, contidas no inoculante, favoreçam a fermentação e melhorem a qualidade da silagem de capim. 


Utilização de Aditivos em Silagem

Utilização de Aditivos em Silagem


Foto: Embrapa


#8 - Vedação do silo


A vedação é importante para evitar a entrada de ar e água no silo. O material mais usado é lona de polietileno de dupla face, com tratamento contra ultravioleta e o mínimo de 200 micras de espessura.


A lona deve ser estendida sobre a silagem, ultrapassando aproximadamente 1 m nas extremidades do silo. Em seguida, as bordas da lona são presas com terra ou sacos de areia.



Foto: Paperplast


#9 - Abertura do silo


Ocorre aos 40-60 dias após o fechamento e vedação do silo. Neste momento, a silagem está estabilizada e pode ser usada para alimentação do rebanho. Quando abrir o silo, observe a silagem com atenção, para detectar partes estragadas ou mofadas.

Estas devem ser retiradas e descartadas, antes do fornecimento da silagem aos animais. A fatia removida diariamente deve ter espessura de, no mínimo, 20 cm.




#10 - Uso da silagem


Para o uso correto da silagem de capim, o produtor precisa de alguns cuidados:

- separação do rebanho em categorias animais (vacas em lactação, de alta, média e baixa produção; vacas secas; novilhas), pois as exigências nutricionais são diferentes;

- custo de produção de matéria seca da silagem;

- E custo do concentrado, que pode ser necessário caso a silagem de capim seja usada em substituição à silagem de milho (que tem valor nutritivo mais alto).




Foto: Embrapa


Cuidado com produto pirata

Mas esse sucesso tem cobrado um preço: a pirataria. Por ser de propagação vegetativa (reprodução assexuada feita por meio do plantio de pequenas estacas do caule da planta), o produto tem sido pirateado com facilidade. Viveiristas não cadastrados pela Embrapa têm anunciado o produto em sites de vendas online. “Em condições assim, não há certeza de que o comprador está adquirindo o produto correto”, adverte o chefe de Transferência de Tecnologia da Embrapa Gado de Leite, Bruno Carvalho.

Ele ratifica que a Embrapa só garante a procedência do produto por viveiristas credenciados. 


 
 

Link
Tags »
Notícias Relacionadas »
Comentários »

Se você é produtor rural, qual a sua principal atividade agrícola?

11.3%
5.2%
8.5%
3.8%
8.5%
31.9%
6.6%
10.8%
3.8%
2.8%
4.2%
2.8%
Fale pelo Whatsapp
Atendimento
Precisa de ajuda? fale conosco pelo Whatsapp