04/03/2021 às 09h50min - Atualizada em 04/03/2021 às 09h50min

Abóboras e abobrinhas: o produtor precisa estar atento ao mercado e às melhores épocas de semear e de colher

Redação com assessoria
Secretaria de Agricultura SP

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No Estado de São Paulo, enquanto produtores de algumas regiões esperam a temporada de chuvas passar para plantar abóboras, outros semeiam e colhem praticamente o ano todo. Há há ainda os que começam a ‘preparar o berço’ para os novos plantios em julho; posteriormente, fazem a semeadura em outubro; e colhem de janeiro até março, como é o caso dos produtores orgânicos como Emerson Xavier de Souza, de Parelheiros, bairro onde se concentram os produtores que servem a maior capital do País.

Há cinco anos, Emerson, que nasceu e foi criado dentro da agricultura familiar, resolveu retomar o plantio de abóboras secas aprendido com a mãe, Dona Mercedes, e, em pouco tempo, já produzia grandes abóboras,  tornando-se ainda mais conhecido na região por suas abóboras gigantes. Em 2018, o Sítio Orgânico Plenitude virou sensação quando Emerson construiu cinco montes de abóboras, cada um com cerca de 800 a mil quilos, bem na entrada da propriedade, que fica na beira da estrada que leva às praias paulistas e se divertiu vendo várias pessoas pararem para tirar fotos e, claro, também, comprar abóboras.

Os produtores Emerson e Selma

Os produtores Emerson e Selma


Os produtores Emerson e Selma

No ano passado, Emerson e a esposa Selma colheram cerca de oito toneladas, cultivadas em 2,5 ha. Segundo ele, foi pouco menos em função da pandemia; no ano anterior foram colhidas cerca de 11 toneladas e, para 2021, ainda está colhendo e nem teve tempo de fazer as contas. Mas, segundo o conhecido produtor de abóboras secas da zona sul da Capital paulista, é preciso ter um consumidor certo. “As abóboras chegam a durar até cinco ou seis meses depois de colhidas, isso se forem bem cuidadas, coletadas no período correto, ou seja, já maduras, e armazenadas de maneira a preservá-las”. Para o sucesso na atividade, alguns detalhes são fundamentais e vários deles foram aprendidos com seus pais, Dona Mercedes e Seu Manoel, que criaram 11 filhos cultivando abóboras e criando porcos. Era a dupla perfeita, pois as abóboras serviam para alimentar os porcos. Além disso, cultivavam milho, feijão, chuchu e batata. “A batata que deu nome ao Largo da Batata”, relembra Emerson, que, além de abóboras, também cultiva várias outras hortaliças e raízes, como mandioca, brócolis, repolho e alface, todos orgânicos certificados pelo IBD (Instituto Biodinâmico).

Emerson constituiu família em Parelheiros e manteve a tradição familiar e o aprendizado no ramo das abóboras. “Tenho um paiol onde as abóboras são guardadas depois de lavadas e secas. Foi minha mãe que me ensinou que as abóboras têm que ‘descansar’ em um local escuro, para depois aguentarem a luminosidade em galpão aberto, onde ficam até serem comercializadas. A comercialização é feita via Cooperativa Agroecológica dos Produtores Rurais e de Água Limpa da Região Sul de São Paulo (Cooperapas) e outros organismos sociais que vendem produtos orgânicos. “Mas muitos vêm buscar aqui; sempre tem abóboras”, conta Emerson. A variedade é grande: desde as abóboras-canhão (as grande de pescoço, que pesam acima de 40kg), as abóboras jerimum, paulistinha, morangas e as cobiçadas Cabotiã. “As abóboras precisam de polinização, então para cultivar umas é preciso cultivar outras nas entrelinhas, senão não há polinização entre elas. As abelhas auxiliam (e Emerson tem algumas caixas), mas a polinização cruzada entre as variedades é fundamental”, explica o produtor.

Este ano, em julho, Emerson começará a preparar os ‘berços’, reforçando o que a agricultura orgânica prega: “É preciso primeiro cuidar da terra, adubar, para ter boa colheita”.

Os berços são preparados manualmente, neles é feita adubação verde e adubação com micro-organismos, por meio do conhecido bokashi ‒ mistura de vários micronutrientes essenciais ‒, utilizado na agricultura orgânica e que é preparado na propriedade. “Este ano estão previstos 1.600 berços e com este tratamento, que torna um solo bem nutrido, posso garantir uma boa colheita de abóboras. Enquanto o berço é preparado, também tem início o preparo das mudas que serão transplantadas para o berço em setembro/outubro e, em novembro, dependendo das condições climáticas, já será possível ver o campo todo verde, com flores de abóboras. É muito bonito de se ver”, convida Emerson.

A colheita só irá acontecer de 120 a 150 dias, se estendendo de janeiro até março. “Temos o local ideal para o cultivo de abóboras: boa terra e muita água”, conta o produtor, que passou toda a sua vida na região. Entre os planos para este ano está iniciar o microprocessamento das abóboras grandes, para alcançar outros nichos de mercado, entregando em cortes “porque é mais difícil alguém adquirir abóboras muito grandes”.

“Gosto de desafios, o produtor muitas vezes tem que se arriscar e ter visão de futuro”, diz. Por isso, a pandemia não o assustou, pelo contrário, quando muitos produtores de Parelheiros resolveram não cultivar em 2020, ele, por outro lado, cultivou brócolis, couve-flor e várias outras hortaliças em todos os espaços disponíveis. “Plantaria até dentro de casa se pudesse, pois vi que a população ia demandar alimentos e a nossa missão, enquanto agricultores, é fornecer alimentos para a população. Por isso, insisto: é preciso que os governantes olhem com respeito e deem o suporte necessário, porque sem os agricultores não há alimento”, disse Emerson.

O resultado durante o longo e difícil ano de 2020 foi investir ainda mais na agricultura, colher os frutos e vender tudo. “Muitos que não cultivaram vieram me procurar para revender. Levanto todo dia às 4h30 da manhã e volto para casa às vezes já de noite; muitos desistem dessa vida dura, mas é o que eu sei fazer, o que gosto de fazer, desde pequeno”, reforça com entusiasmo.

Aos 49 anos, também tem, principalmente, um grande sonho e desejo: vida longa ao Sítio Orgânico Plenitude. Espero que pelo menos um dos meus filhos, Matheus e Esther, que diz que quer ser engenheira agrônoma, dê continuidade e mantenha a tradição e o nome de nossa família em Parelheiros”, diz Emerson.

Quem quiser conhecer mais e ver abóboras de todos os tipos é só passar por lá, na descida da serra para o litoral ou acessar: https://www.facebook.com/Sitio-Plenitude-100351098041949/?ti=as.




Há abóboras por todo o estado de SP

Segundo o engenheiro agrônomo Gilberto Figueiredo, da Casa da Agricultura de Caraguatatuba, o cultivo da abóbora seca ocorre de forma mais intensa nas regiões de Itapetininga e Sorocaba. “No Cinturão Verde e aqui no litoral plantamos mais abóboras Menina, Brasileira e Caserta, todas comercializadas verdes. A vantagem da Menina é que se pode deixar para abóbora seca, que é o que os produtores daqui fazem muito. Já a Tetsukabuto é mais cultivada nas regiões de Ibiúna e Piedade, que têm climas mais amenos, porém também há produtores no litoral paulista que aproveitam o inverno para cultivar variedades mais resistentes ao frio, já que o inverno no litoral costuma ser mais ameno”, diz Figueiredo.

No geral, as abóboras podem ser cultivadas e colhidas o ano todo, mas sempre vai depender da variedade de abóbora e da região. No verão, principalmente com as chuvas, as abóboras sentem muito a umidade e estragam no campo, mas tanto no Litoral Norte quanto no Litoral Sul de São Paulo são cultivadas abóboras secas ou maduras ‒ como as Morangas, Jacarezinho, Paulistinha, de Pescoço ‒ praticamente durante o ano todo, assim como as abóboras verdes, conhecidas como ‘abobrinhas’. O mesmo ocorre nas regiões de Itapeva, Itapetininga, Caucaia do Alto e Sorocaba.

Segundo o agrônomo, o interior de São Paulo é forte na produção de abóboras secas. “Geralmente, são semeadas em duas épocas distintas: nas últimas chuvas do verão, no final de fevereiro e durante o mês de março, para serem colhidas no outono/inverno, desde que a região não tenha um inverno muito rigoroso, pois as abóboras são sensíveis às temperaturas muito baixas. E é geralmente no inverno que costumam ser procuradas pelos consumidores para serem utilizadas em receitas de festas juninas, como doces de abóbora e caldos. Outros semeiam no finalzinho de inverno, entre julho e agosto, para colher antes das chuvas de janeiro e fevereiro, ou seja, no período seco em razão de as abóboras sofrerem com as chuvas, perdendo a qualidade, ou até, em casos mais graves, a produção toda, já que podem apodrecer no campo molhado. Outro detalhe importante é que as abóboras também não toleram geadas e em temperatura menor do que 12°C têm seu desenvolvimento altamente prejudicado, sendo a temperatura ideal para plantio entre 18°C e 27°C. “O ideal é colher abóboras no outono/inverno ou na primavera e fugir dos períodos de chuva. E, para isso, no litoral, o ideal é fazer o cultivo em março”, comenta Figueiredo.

“São culturas fortes nas regiões mais quentes, como o centro-oeste, porém, nos últimos anos, houve redução nas grandes produções em função do aumento do cultivo de soja na rotação das pastagens e também no aumento da área para cultivo de cana-de-açúcar”, explica o engenheiro agrônomo Sérgio Ishicava, da CDRS Regional Bauru. Outras regiões como Marília, Tupã, Ourinhos, Dracena e Presidente Prudente também são conhecidas pelo cultivo de melancias e abóboras e a época de cultivo é o mês de março para serem colhidas a partir do inverno, época de estiagem, até a primavera.

Ishicava explica que um fator o qual interferiu na redução de área de produção é que a soja é hospedeira da mosca-branca, que interfere, significativamente, nas culturas da melancia e da abóbora, pois as tais costumam ser culturas parceiras. “O mesmo produtor que produz abóbora costuma produzir melancia, uma vez que o manejo é similar.  Outro fator determinante é que o produtor de melancia e abóbora geralmente não tem áreas próprias, costuma arrendar áreas de pastagens para cultivar abóbora e melancia, e depois devolve a terra adubada para o proprietário, que normalmente é pecuarista”, argumenta o extensionista.

“Houve uma grande expansão do eucalipto e da cana-de-açúcar no centro-oeste paulista e os produtores tradicionais de abóboras e melancias perderam espaços para essas culturas e as áreas de pastagens normalmente disponíveis para esses produtores têm diminuído bastante. Durante 2020, estivemos muito limitados nas visitas a campo, e esses cultivos são migratórios e vão mudando de acordo com as novas situações que vão surgindo, mas a impressão que temos, conversando com produtores nos atendimentos on-line, é de uma significativa redução do cultivo”, diz Ishicava, explicando que com as olerícolas, plantas de ciclo curto, fatores como esses citados podem ser determinantes.

Ishicava conta que a região de Jales também foi famosa por ter produtores especializados em cultivo de abóbora para exportação, a variedade Butternut, muito conhecida na América do Norte, Austrália e Nova Zelândia. Trata-se de uma variedade que cresce na mesma estrutura das videiras, outra cultura comum na região de Jales. Tem um sabor adocicado de noz, possui casca amarelo-acastanhada e polpa carnuda alaranjada; chega a pesar de 4kg a 5kg. “Tratava-se de uma abóbora espetacular em sabor e qualidade. Era colhida no inverno para atender ao Mercosul, em especial à Argentina, onde a culinária oferece muitos pratos à base de abóbora. Porém era um mercado específico, uma oportunidade, e os produtores eram muito tecnificados, por se tratar de uma variedade mais exigente”, explica Ishicava.

Gilberto Pelinson, engenheiro agrônomo da CDRS Regional Jales, conta que os plantadores de abóboras com foco na exportação para a Argentina desistiram devido à situação do país vizinho. “Eram produzidas para um nicho específico de mercado e apenas essa variedade, que tem as características desejadas pelos compradores. Mas exigia maior atenção ao manejo e mais tecnologia; com a queda das exportações, a atividade tornou-se inviável. Hoje, a região de Jales tem cultivado a abobrinha paulista, aproveitando a mesma estrutura dos vinhedos; e essa variedade, vendida verde, não exige grandes cuidados. A estrutura já existe e após a poda dos parreirais as duas culturas convivem. A região de Jales é reconhecida pela produção de uvas e a atividade tem representatividade e reflexos econômicos na região. Com o aproveitamento da estrutura, a abrobrinha paulista vem oferecendo um ganho extra ao produtor”, explica Pelinson.

Gilberto Figueiredo, Sergio Ishicava e Gilberto Pelinson concordam que fatores externos podem interferir nos cultivos e é preciso o produtor estar atento, aproveitar as oportunidades e as áreas disponíveis e permanecer alerta às demandas do mercado consumidor para poder escoar a sua produção. “Não basta saber produzir, é preciso ter planejamento e estar sempre procurando ouvir as tendências, aprender novas tecnologias de produção e, principalmente, estar atento ao mercado e aos novos nichos que possam surgir”, argumentam. “E o nosso papel, enquanto extensionistas, é orientar e capacitar os produtores nessas atividades”.


 


 


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